A quarta onda



A obsessão de Alvin Toffler, um nova-iorquino de 73 anos, é escarafunchar pistas sobre o futuro. Durante mais de 30 anos, ele se notabiliza pelo sucesso que vem obtendo na empreitada. Toffler vislumbrou um novo e acelerado ritmo de vida enquanto o mundo cantava baladas inocentes, em meados da década de 60. As pessoas seriam confrontadas com o que chamou "choque do futuro", termo que serviu como título para seu primeiro livro, publicado em 1970, que elencou uma série de fenômenos hoje corriqueiros: a profusão de conceitos descartáveis, uma avalanche de informações cada vez mais acessíveis, o uso pessoal de computadores, então enormes engenhocas restritas a universidades e grandes corporações. Em 1980, A Terceira Onda propagou pelos quatro cantos a teoria que divide a história em três ondas de mudança -- a agrícola, a industrial e, enfim, a tecnológica.


Toffler vê o prenúncio de uma quarta onda nos atuais avanços da biotecnologia. Quando traça prognósticos, discorre sobre ciência, geopolítica ou negócios com a mesma desenvoltura. Sua trajetória é quase tão eclética quanto seu discurso. O primeiro emprego de Toffler, quando ainda era adolescente, foi como operário na fundição de uma indústria automobilística. Mais tarde, graduou-se em letras e literatura e iniciou os estudos de fenômenos sociais. Hoje, divide-se entre o trabalho de consultor de empresas e de órgãos de governo americanos, como a Nasa. Um tipo eloqüente, com uma fala pausada, Toffler falou a EXAME de sua casa, no sul da Califórnia, onde trabalha em tempo integral. 

Qual será a quarta onda? 

Hoje vivemos a última parte da terceira onda -- um rápido e revolucionário desenvolvimento da biologia e a sua convergência com a tecnologia da informação. Até agora a revolução biológica dependeu da tecnologia, sem a qual as pesquisas não seriam possíveis. Mas daqui para a frente os avanços da biologia serão determinantes para desbravar fronteiras tecnológicas. A modificação de algumas estruturas biológicas em seres humanos poderá permitir a preparação para o espaço. Só então embarcaremos realmente na quarta onda -- vamos considerar o espaço mais seriamente e começaremos a colonizá-lo.


O que fez o senhor chegar a essa conclusão? 

A convergência entre a tecnologia da informação e a biologia já está acontecendo. Você a vê em manchetes de jornais todos os dias. Os avanços em relação ao espaço, no entanto, não viram notícia tão freqüentemente. Embora poucos saibam, caminhamos para uma revolução nesse campo. Eu e Heidi, minha mulher, participamos de um grupo de estudos na Nasa, para pesquisar os efeitos da ausência de gravidade nos astronautas e realizar experimentos biológicos que terão um impacto significante na medicina. Suponha que você pegue uma gripe e vá ao médico. Ele pode tirar uma amostra do vírus para fazer testes em laboratório. Mas jamais poderá estudar precisamente suas reações a determinados estímulos. O microrganismo não reage da mesma maneira fora do nosso corpo. Porque dentro do corpo a célula é tridimensional. Quando você a retira, a gravidade a torna chapada como uma panqueca. O vírus no espaço, no entanto, continua tridimensional. 

Os computadores atuais executam tarefas impensáveis há até poucos anos. Em 1997, o Deep Blue, da IBM, venceu o campeão russo Gary Kasparov numa partida de xadrez. Já chegamos ao auge do desenvolvimento tecnológico? 

Os computadores que conhecemos hoje são como as primitivas ferramentas de pedra de 10 000 anos atrás. A nanotecnologia está desbravando maneiras de processar informações em espaços tão minúsculos que conseguiremos construir ambientes em que tudo ao redor será inteligente. Essas engenhocas estarão intercomunicadas entre si e com os seres humanos. E serão como poeira. Vamos criar ambientes inteiros em que seremos parte de uma estrutura de informação invisível. Mas somos crianças a caminho dessa mudança. E ninguém sabe quais serão as conseqüências desse ambiente na sociedade ou nos valores das pessoas. Caminhamos para um período que será cientificamente, tecnologicamente, culturalmente, socialmente excitante, porque haverá um mundo de possibilidades. Mas, ao mesmo tempo, será um ambiente extremamente turbulento. As possibilidades, de um lado, vão resolver problemas. De outro, criarão enormes conflitos éticos sobre suas aplicações. 

Qual deverá ser o impacto da biotecnologia nos negócios? 

Teremos uma corrida para criar robôs que poderão realizar procedimentos semelhantes aos do pensamento humano, de uma maneira bem mais eficiente do que eles já fazem hoje. Há, na ciência da computação, o teste de Turing. Turing foi um grande pioneiro da computação na Inglaterra na Segunda Guerra Mundial. Ele propôs que, se você não pode perceber a diferença entre a maneira como uma máquina e um ser humano respondem a uma mesma situação, para efeito prático, não há diferença. Turing achava que chegaríamos a esse ponto com as máquinas. E ele não é o único. Hoje muitos concordam com essa proposição. Outros dizem que seremos dominados pelas máquinas. Que uma rede de máquinas integradas criará um poder intelectual tão grande que ultrapassará o dos seres humanos. Mas é provável que a grande mudança não esteja relacionada a máquinas, e sim à biologia. E o que aprenderemos com a nova biologia não será apenas como regenerar um rim ou fazer um novo braço. Não será somente a capacidade de clonar pessoas. Seremos capazes de mudar as características genéticas humanas. 

As pessoas vão viver mais? Há o risco de um colapso populacional? 

É muito provável que as pessoas vivam mais no futuro. E a mudança na proporção entre jovens e velhos deve ser algo mais importante do que a evolução do número de pessoas. O número absoluto de pessoas aumentou, mas a taxa de crescimento está diminuindo ano a ano. Mesmo em países como o Brasil, onde a hipótese era de que o número de crianças por família aumentaria progressivamente. 

O senhor acha que o ciclo das ondas será cada vez mais efêmero? 

Sim. Não uso a palavra ciclo porque não acho que a história seja cíclica. Mas as ondas, sem dúvida, estão vindo mais rapidamente. Vivemos uma aceleração da história. E isso tem sérias implicações para o poder mundial, por exemplo. Há a discussão de que a única superpotência global são os Estados Unidos, uma espécie de Roma dos tempos atuais. A razão pela qual essa não é uma boa comparação é que, em 700 a.C., Roma poderia ser uma potência por milhares de anos. A dominação inglesa na Ásia poderia durar séculos. Mas nada dura tanto hoje. Até as recessões vêm e vão mais rapidamente. E por isso parece improvável que qualquer nação mantenha uma posição de domínio por muito tempo. 

A premissa da teoria das ondas não era justamente a de que a história parece seguir determinados padrões? A idéia de que a história se repete é uma bobagem? 

Não acredito que a história seja uma linha reta. Mas os fatos também não se repetem literalmente de tempos em tempos. Não vamos voltar para a Idade Média, por exemplo. Vejo a história como uma espiral. Você pode estar numa posição agora. E depois em outra, oposta. Em seguida, você volta a uma posição similar, mas numa outra fase. Voltemos à comparação entre Roma e os Estados Unidos, dois grandes centros econômicos e culturais de épocas diversas. Em Roma, você não tinha uma sociedade globalmente integrada. Não havia uma rede mundial como a internet que pudesse rapidamente espalhar características culturais de uma determinada localidade para outra. Alguns aspectos da história se repetem, mas num estágio diferente. 

O senhor já foi uma vítima do choque do futuro? 

Sim. Certamente. (Risos) Pergunte à minha mulher. Temos sentido isso mais do que nunca. O choque do futuro é a necessidade de tomar decisões tão rapidamente que essa velocidade interfere na capacidade de fazer escolhas cuidadosas. Muitos dizem: atire primeiro, mire depois. Penso que isso está incorreto. 

Essa premissa tem adeptos no mundo dos negócios. É uma postura sustentável? 

Há uma noção hoje de que o sucesso nos negócios depende exclusivamente da flexibilidade e da capacidade de adaptação. Se você não pensa nos passos que dará em seguida, você perde o controle do próprio destino. É como se fosse a um aeroporto e deixasse a multidão empurrá-lo para uma sala de embarque qualquer. A multidão escolhe, por exemplo, que você vai para o Texas. Se você não se importa com o destino de sua companhia, tudo bem. Do contrário, precisará de uma estratégia. A multidão vai pressioná-lo? Sim. Mas é possível desenvolver estratégias novas e um ambiente que seja receptivo a constantes revisões de rota. 

As pessoas serão mais céticas no futuro? 

Elas deverão ser mais céticas. Há muitas pessoas, mesmo as inteligentes, que caíram em modismos nas últimas décadas. Numa semana era reengenharia, na seguinte, qualidade, e na outra, qualquer outra coisa. E as pessoas tendem a querer estar na próxima onda. Ninguém deveria fazer parte da multidão e ser como os lemingues, pequenos roedores do hemisfério norte que inexplicavelmente seguem uns aos outros e pulam de despenhadeiros juntos. Os executivos deveriam pensar independentemente e não aceitar modismos. Os consultores e gurus comercializaram modismos. As companhias são freqüentemente mais diferentes do que iguais. Por isso sou cético em relação a cinco regras para isso, sete regras para aquilo... A massificação de conceitos fez algum sentido na segunda onda. À medida que evoluímos para uma sociedade e uma economia cada vez mais desmassificadas, essas regras perdem o sentido. 

Afinal, de tudo o que se vê por aí, é possível distinguir as regras de negócios que valerão nos próximos anos? 

(Risos) Por que você não me pergunta que ações comprar? 

Se o senhor pudesse me dizer, seria ótimo! 

Não compre ações (risos). Acho que veremos mudanças em todo o nosso pensamento econômico. Eu e minha mulher estamos estudando o assunto nos últimos tempos. A maioria das regras de economia é cada vez mais obsoleta. É preciso criar novas teorias econômicas para a sociedade emergente. Os modelos atuais foram desenhados há mais de 100 anos por economistas capitalistas e marxistas. Eles analisaram a nova economia do tempo deles. E era a economia industrial -- produção em massa, mídia de massa, distribuição e consumo de massa. E hoje a sociedade caminha em direção oposta. Falamos em "desmassificação" da produção e do consumo, enfim, em dissolução de toda a estrutura de massa que a industrialização criou. Precisamos rever a escala de nossa economia. Não podemos confiar em nosso pensamento econômico atual, especialmente no macroeconômico. 

O senhor já disse que no futuro não haverá distinção entre empresas grandes e pequenas, mas entre rápidas e lentas. Só as rápidas sobreviverão. Qual é o futuro das grandes corporações, que surgiram no início da industrialização, num contexto de mudanças constantes? 

Acho que ainda as chamaremos de corporações, e a relevância delas será a mesma. Mas a estrutura organizacional será bem diferente. Nos últimos dez anos, essas companhias passaram por uma fase intensa de terceirização de atividades para enxugar parte do peso das estruturas monolíticas que foram eficientes na era industrial, na economia da segunda onda. Em 1961, fiz um relatório para a IBM sobre o impacto do computador na organização da sociedade e escrevi sobre a forma como as novas tecnologias podem nos ajudar a gerenciar organizações mais complexas -- maiores e mais velozes -- com eficiência. Com a terceirização e a ajuda da tecnologia, as empresas estão se aproximando do modelo de um banco de investimento. Concordo que é difícil gerenciar uma rede de prestadores de serviços e manter a qualidade. Mas teremos de aperfeiçoar nossos métodos. 

É possível ser grande e ágil? 

É possível ser grande, ágil e estúpido. Também é possível ser grande e ter algumas unidades de negócio ágeis. Mas não é possível tornar a estrutura de uma grande empresa, como a conhecemos hoje, ágil e eficiente. E agilidade não é um termo absoluto. Não quer dizer que rápida seja uma companhia que anda a 200 quilômetros por hora. A rapidez se refere à relação com consumidores, fornecedores e concorrentes. O importante é ser mais veloz em relação aos outros em todos esses aspectos. A relação entre o tempo, os negócios e a economia é um território amplo e inexplorado. É o tema do meu próximo livro, a ser editado em mais ou menos um ano. 

A sociedade está evoluindo eticamente? 

Não posso afirmar que a sociedade de 2002 é mais ou menos ética que a de 1902 ou a que de 1602. Não acho que o conceito de ética possua um sentido universal e eterno. Mas um significado diferente em diversas sociedades. Eu, por exemplo, sou produto de certo momento da história, cresci sob alguns valores e tento avaliar os meus atos, pelo menos até certo grau, em termos éticos. Não sei quantas pessoas no mundo se preocupam com essa questão. É provável que a maioria leve a vida sem muita filosofia. E fico frustrado com o comportamento que considero antiético de líderes políticos e pessoas que deveriam ter uma postura responsável. Eu leio história -- leio muito -- e não conheço outra passagem da história que seja tão virtuosa, segundo a minha própria avaliação. E já houve sociedades que se diziam corretíssimas baseadas em critérios dos quais discordo radicalmente. O que seria ético para um grego, para quem a escravidão poderia parecer algo natural, provavelmente não será para mim. 

O mundo será melhor? 

Se será melhor ou pior dependerá da avaliação de nossas crianças no futuro. Não da maneira como nós avaliamos. 

Fonte: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/766/noticias/a-quarta-onda-m0052568
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